O luto é uma experiência universal, mas profundamente individual. Quando a morte interrompe histórias, ela também transforma rotinas, relações e a forma como as pessoas seguem vivendo. Nesta reportagem especial, histórias diferentes revelam como a ausência de alguém querido passa a fazer parte do cotidiano de quem fica.
Os relatos mostram trajetórias distintas, atravessadas por um mesmo sentimento: a tentativa de reorganizar a vida depois de uma perda. Em comum, todos descrevem o impacto profundo que a morte provoca nas relações familiares e na percepção do tempo e das memórias.
Quando alguém morre, não desaparece apenas uma presença física. Projetos são interrompidos, rotinas mudam e os espaços da casa ganham novos significados. O que antes era convivência passa a ser lembrança, e o que antes era cotidiano passa a ser memória.
A jornalista Rafaela Daros viveu essa experiência após a morte da mãe, Meri. Ela conta que, no dia do sepultamento, sentiu uma sensação de paz, por acreditar que havia feito tudo o que podia durante o período de cuidado. No entanto, os dias seguintes foram marcados por um vazio difícil de preencher.
A rotina que antes girava em torno da mãe desapareceu. Datas que eram de celebração, como a Páscoa — que coincidia com o aniversário de Meri — passaram a carregar um sentimento de ausência. Hoje, Rafaela diz que encontrou pequenas formas de manter viva a memória da mãe. Preparar uma comida que ela gostava, comprar flores ou acender uma vela são gestos que ajudam a transformar a saudade em lembrança.
“A saudade não passa, ela se ameniza. A gente aprende a lidar com essa dor e transformar em uma lembrança boa do coração”, relata.
O coordenador técnico Rodrigo de Oliveira também precisou reorganizar a própria vida após perder a esposa, Tatiane, vítima de câncer. Durante três anos, ele acompanhou o tratamento da companheira entre hospitais de Caxias do Sul e Porto Alegre. Depois da morte, o cotidiano mudou completamente. Segundo Rodrigo, a casa continua a mesma, mas a ausência se manifesta em pequenos detalhes da rotina.
“Você continua fazendo as mesmas coisas, mas algo está faltando”, afirma.
Pai de uma menina, ele diz que precisou encontrar forças para seguir também por causa da filha. O apoio da família, dos colegas de trabalho e a fé foram fundamentais nesse processo. “A saudade vira um lugar onde a gente guarda o amor”, resume.
A técnica de enfermagem Patrícia Rech enfrenta o luto desde a morte precoce do filho Miguel. Ela afirma que nenhuma mãe está preparada para viver a perda de um filho.
“Quando acontece, o mundo que a gente conhecia é tirado de nós em um instante”, relata.
Patrícia conta que Miguel era o filho com quem tinha maior afinidade. Depois da perda, ela buscou apoio em grupos de acolhimento e em pessoas que passaram por experiências semelhantes. Hoje, diz que o filho permanece presente na rotina, mesmo de forma silenciosa. “Eu digo bom dia, filho… mais um dia. E à noite eu digo boa noite”, conta. Para ela, o luto não é uma doença, como algumas pessoas pensam, mas uma forma de amor que permanece na memória.
ana Lúcia e o marido Alexandre
A aposentada Ana Lúcia Pires perdeu o marido, Alexandre, após quase 36 anos de casamento. Ela descreve o luto como uma mudança profunda na forma de viver. “No outro dia, após o sepultamento, parece que tudo continua igual… mas nada está no mesmo lugar”, afirma.
A ausência se revela especialmente na falta de alguém para dividir o cotidiano e as decisões simples da vida. Segundo Ana Lúcia, o tempo não elimina a dor. “O tempo não cura… o que fica é uma cicatriz no coração.” Mesmo assim, ela encontrou apoio na fé, nos filhos, nos amigos e no trabalho para reconstruir a rotina.
“O luto não acaba. Mas a gente se reergue… porque a vida continua.”
A jornalista e professora Laiz Fidalgo, que perdeu o pai e de forma repentina, também relata como a perda transforma a maneira de enxergar a vida. Segundo ela, o processo de luto envolve revisitar memórias e ressignificar afetos. A saudade permanece presente em momentos simples, como ir à praia ou preparar uma moqueca capixaba, prato preferido do pai.
O que dizem os especialistas?
Para a psicóloga Clareana Saragiotto, especialista em luto, esse processo representa uma adaptação profunda diante de perdas — que podem ir além da morte, incluindo separações ou grandes mudanças de vida. Ela explica que não existe um tempo definido para viver o luto. “As emoções oscilam. Tristeza, raiva, saudade e culpa podem aparecer em diferentes momentos”, afirma. Segundo Clareana, o luto também revela a intensidade dos vínculos afetivos.
“Ele é o outro lado da moeda do amor.”
A especialista também alerta para frases comuns que podem causar ainda mais sofrimento. Como, por exemplo, dizer a alguém que está em luto que “é preciso seguir em frente”, algo que pode ser muito doloroso. Para ela, o mais importante é oferecer presença, escuta e acolhimento.
O escritor e psiquiatra Augusto Cury afirma que o luto é um dos fenômenos mais profundos da psique humana e pode se tornar luto crônico quando a dor da perda paralisa a vida emocional. Segundo ele, a saudade não desaparece, mas pode ser ressignificada. Em vez de alimentar culpa e tristeza permanente, a melhor forma de honrar quem partiu é seguir vivendo com mais sentido, generosidade e alegria. Para Cury, superar o luto significa não transformar a perda em uma prisão emocional, mas assumir o papel de autor da própria história, mesmo diante da dor.
O antropólogo Cristiano Sobroza Monteiro, professor da Universidade de Caxias do Sul, explica que o luto também é um fenômeno social. Segundo ele, cada sociedade constrói formas próprias de expressar a dor e de lidar com a morte.
“Quando alguém morre, não é apenas uma vida que termina. É uma rede de relações que se desestrutura”, afirma.
Nesse contexto, ele explica que rituais religiosos, familiares ou comunitários ajudam a reorganizar simbolicamente esse tecido social. Contudo, eles não eliminam o sofrimento, mas tornam a dor compartilhável. Diante da experiência do luto, o jornalismo também assume um papel de escuta e registro dessas histórias. Mais do que falar sobre quem partiu, trata-se de compreender como as pessoas seguem vivendo após a perda. Porque, depois da morte, a vida continua — ainda que marcada pela ausência. E aprender a conviver com essa ausência é, muitas vezes, o caminho possível para seguir em frente.


